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Câncer ginecológico não é um só: saiba as diferenças entre tumor de colo do útero, endométrio e ovário

Câncer ginecológico não é um só: saiba as diferenças entre tumor de colo do útero, endométrio e ovário

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Brasília (DF), setembro de 2026 – A expressão “câncer ginecológico” engloba diferentes doenças que podem atingir órgãos do sistema reprodutor feminino. Os tumores do colo do útero, do endométrio e do ovário possuem características próprias: enquanto um deles oferece amplas possibilidades de prevenção, outro costuma emitir um sinal de alerta bastante reconhecível, e um terceiro pode evoluir de forma mais silenciosa.


Compreender essas diferenças ajuda as mulheres a reconhecerem a importância do acompanhamento ginecológico, da realização dos exames indicados e da investigação de alterações que não devem ser normalizadas. A médica oncologista e especialista em Oncogenética e Oncologia de Precisão do Hospital Santa Lúcia, Dra. Andreza Souto, explica que cada tipo de câncer exige uma jornada de cuidado específica.


As diferenças entre as jornadas dos cânceres ginecológicos estiveram entre os assuntos discutidos no 4º Fórum de Políticas Públicas para o Câncer Ginecológico, realizado pelo Grupo EVA em 9 de setembro, na Câmara dos Deputados, em Brasília. O encontro reuniu médicos, gestores, representantes do Ministério da Saúde, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), de sociedades médicas, de organizações de pacientes e do Poder Legislativo.


Durante o evento, Andreza Souto participou da mesa “Transformando a Linha de Cuidado da Mulher: do Diagnóstico Precoce à Medicina de Precisão”, na qual ministrou a palestra “Da suspeita ao tratamento: como construir uma Linha Nacional de Cuidado moderna para os cânceres ginecológicos”. Em sua apresentação, a oncologista mostrou como as particularidades dos tumores do colo do útero, do endométrio e do ovário influenciam a prevenção, o reconhecimento dos sinais e as decisões terapêuticas.

Dra. Andreza Souto, oncologista do Hospital Santa Lúcia (Foto: Manoel Neto/ISO Filmes)


Câncer do colo do útero


Entre os tumores ginecológicos, o câncer do colo do útero se diferencia pelas oportunidades de prevenção e detecção de alterações antes do aparecimento do tumor. A maioria dos casos está associada à infecção persistente por tipos de alto risco do papilomavírus humano, o HPV, transmitido principalmente pelo contato sexual, conforme explica a médica, dedicada aos tratamentos de tumores da mama e ginecológicos.


A infecção pelo vírus é comum e, em grande parte das pessoas, desaparece espontaneamente. Em alguns casos, porém, ela persiste e pode provocar alterações celulares que, ao longo dos anos, evoluem para lesões precursoras e, posteriormente, para o câncer. “Existe uma janela muito longa em que podemos identificar e tratar lesões precursoras antes que elas se transformem em um câncer invasivo”, afirma Andreza Souto, que também integra a diretoria do grupo Eva - Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos.


A prevenção reúne medidas complementares. A vacinação contra o HPV atua principalmente na proteção das novas gerações, enquanto o rastreamento permite identificar mulheres que já apresentam risco ou alterações que precisam ser acompanhadas. A incorporação do teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento representa uma transformação nesse cuidado por utilizar um exame de alto desempenho para identificar a presença do vírus.


Segundo a oncologista, vacinação, rastreamento, diagnóstico e tratamento devem ser compreendidos como partes de uma mesma estratégia. É essa lógica que orienta a meta 90-70-90 da Organização Mundial da Saúde (OMS): alcançar 90% das meninas vacinadas contra o HPV até os 15 anos; 70% das mulheres rastreadas com teste de alto desempenho; e assegurar que 90% daquelas com lesões precursoras ou câncer identificados recebam o tratamento adequado.


“A vacinação protege as novas gerações, enquanto o rastreamento identifica precocemente as mulheres que já estão sob risco, e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento impede que uma alteração detectada evolua para o câncer”, explica.


Câncer de endométrio


O câncer de endométrio surge no tecido que reveste a parte interna do útero. Diferentemente do câncer do colo do útero, ele não conta com um exame de rastreamento indicado de forma rotineira para todas as mulheres. Por isso, a atenção aos sinais apresentados pelo corpo tem papel fundamental na investigação precoce.


O principal alerta é o sangramento uterino fora do padrão habitual. Embora esse sintoma possa ter outras causas, ele sempre deve ser avaliado por um profissional de saúde. “Muitas vezes, o primeiro sinal é o sangramento uterino, especialmente após a menopausa, e esse sintoma precisa gerar investigação rápida. Sangramento depois da menopausa nunca deve ser banalizado”, alerta a especialista.


A recomendação também vale para mudanças persistentes no padrão menstrual antes da menopausa. A presença de sangramento incomum não significa necessariamente que exista um tumor, mas indica a necessidade de buscar atendimento para descobrir sua origem.


Câncer de ovário


No câncer de ovário, o desafio é diferente. A doença pode se desenvolver de maneira silenciosa, com manifestações pouco específicas, sobretudo em suas fases iniciais. Por isso, alterações persistentes ou que se tornam mais frequentes merecem atenção e avaliação médica. Quando o diagnóstico é confirmado, a definição do tratamento considera fatores como o tipo de tumor e a extensão da doença. Em parte dos casos, a cirurgia citorredutora, procedimento destinado à retirada da maior quantidade possível do tumor, ocupa uma posição central no planejamento terapêutico.


“O diagnóstico costuma ser mais silencioso, e uma das questões fundamentais é garantir que a paciente tenha a oportunidade de ser operada em um centro especializado, porque a cirurgia citorredutora adequada é uma das partes centrais do tratamento”, esclarece a Dra. Andreza.


A especialista reforça que o acompanhamento médico deve considerar a idade, o histórico pessoal e familiar e as características individuais de cada mulher. Esses elementos ajudam a definir quais avaliações são recomendadas e quando pode haver indicação de investigação genética ou de estratégias personalizadas de cuidado.


Informação ajuda a retomar o cuidado


Mesmo sem sintomas, manter o acompanhamento ginecológico permite conversar sobre vacinação, rastreamento, histórico familiar e exames apropriados para cada fase da vida. Para quem está há anos sem procurar um serviço de saúde, a orientação é retomar esse cuidado sem esperar pelo surgimento de uma manifestação mais evidente.


“Eu diria para ela não esperar aparecer um sintoma para procurar atendimento. Retome seu cuidado agora. Procure uma unidade de saúde ou seu ginecologista, veja quais exames estão indicados para a sua idade e histórico e não normalize sintomas que possam representar um alerta”, orienta a oncologista.


Debate nacional em Brasília


Como desdobramento do Fórum, foi lançada a Carta de Brasília pela Saúde da Mulher 2026, documento que reúne as recomendações formuladas nas três mesas de debate sobre prevenção, diagnóstico e acesso ao tratamento dos cânceres ginecológicos. O Congresso Nacional também recebeu iluminação especial em apoio à campanha Setembro em Flor, dedicada à conscientização sobre esses tumores.


“A programação discutiu o problema como uma jornada completa. Começamos falando de prevenção e eliminação do câncer do colo do útero, incluindo vacinação contra HPV, rastreamento e as metas da OMS; depois avançamos para diagnóstico precoce, medicina de precisão e organização da linha de cuidado”, relata a Dra. Andreza Souto.


(Imagem em destaque: Manoel Neto/ISO Filmes)

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