Copa do Mundo 2026: controlar a ansiedade e evitar excessos em dias de jogos são medidas fundamentais para proteger o coração

Copa do Mundo 2026: controlar a ansiedade e evitar excessos em dias de jogos são medidas fundamentais para proteger o coração

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Cardiologista do Ânima Centro Hospitalar alerta para o perigo do "combo" de festas — que reúne álcool, tabaco e comidas pesadas — e reforça a importância de manter os exames de rotina em dia durante todo o ano


Anápolis (GO), junho de 2026 – O clima de Copa do Mundo mexe profundamente com as emoções dos brasileiros. A famosa expressão "haja coração" ganha as ruas a cada partida, refletindo o turbilhão de sentimentos e o aumento natural da ansiedade entre os torcedores que anseiam pelo título mundial. Contudo, longe de focar apenas na tensão do apito inicial, cardiologistas alertam que os dias de jogos decisivos pedem, acima de tudo, equilíbrio comportamental. A preocupação central envolve o estilo de vida adotado e os excessos cometidos durante as comemorações.


A recomendação principal é que os torcedores aproveitem as festividades com moderação, evitando associar o nervosismo dos confrontos a hábitos que possam sobrecarregar o organismo. De acordo com o cardiologista e coordenador da Cardiologia do Ânima Centro Hospitalar, Dr. Giuliano Seraphim, momentos de forte expectativa ativam respostas biológicas automáticas, mas o perigo real se consolida quando o torcedor ignora os limites do próprio corpo.


"Quando passamos por uma situação de forte tensão ou estresse emocional elevado, nosso organismo libera substâncias catecolaminérgicas, como a adrenalina e a noradrenalina. Elas promovem o aumento da pressão arterial, elevam a frequência cardíaca e provocam a vasoconstrição. Em pessoas saudáveis, esse processo é puramente transitório e o corpo se normaliza após o término da tensão. O risco severo surge para indivíduos mais suscetíveis ou que possuem fatores de risco silenciosos e ainda não diagnosticados no consultório, o que torna o monitoramento essencial", explica o médico.


O perigo do "combo": álcool, cigarro e alimentação pesada


O risco cardiovascular é potencializado quando o estresse do jogo se soma a hábitos nocivos comuns em dias de festa. A combinação entre o consumo de álcool, o uso de tabaco e a ingestão de alimentos gordurosos cria um ambiente hostil para as artérias, gerando uma sobrecarga que independe de um diagnóstico prévio de cardiopatia.


"O álcool atua como um potente estimulante cardíaco, elevando diretamente o risco de arritmias, infartos e derrames. O cigarro agrava severamente esse cenário, pois induz a vasoconstrição e reduz temporariamente a capacidade de transporte de oxigênio pelo sangue. Para completar o 'combo', as alimentações mais pesadas e gordurosas tendem a provocar sintomas dispépticos (má digestão) que, muitas vezes, simulam ou mascaram os sintomas de um problema cardíaco. A moderação precisa ser rigorosa", adverte o Dr. Giuliano Seraphim.


Ansiedade ou alerta real? Como diferenciar os sinais no peito


Um dos grandes desafios clínicos em momentos de forte engajamento emocional é a diferenciação entre uma crise de ansiedade típica e um evento cardíaco real, como o infarto. O atraso na procura por ajuda médica devido a essa confusão pode comprometer o prognóstico do paciente.


Os sintomas de uma crise de ansiedade transitória, embora desconfortáveis (como palpitação ou aperto leve no peito), costumam melhorar de forma progressiva assim que o estresse do momento passa. Por outro lado, a dor de origem cardíaca possui marcadores de gravidade bem específicos.


"A dor torácica de origem cardíaca é descrita como um aperto forte ou peso no peito, que dura mais tempo que o habitual e frequentemente apresenta irradiação para a mandíbula, pescoço, braços ou costas. Ela costuma vir acompanhada de sudorese fria, falta de ar e sensação de sufocamento. Sintomas extremos como tontura severa ou desmaio também são sinais de alerta. Em qualquer situação de dúvida, o paciente deve ser encaminhado imediatamente a um serviço de emergência para ser avaliado por um médico especialista", orienta o cardiologista do Ânima.


Check-up "em dia" durante o ano todo


A principal estratégia para curtir as festividades com segurança é a prevenção primária, que deve ser mantida de forma contínua, independentemente do calendário esportivo. Para quem já possui fatores de risco estabelecidos, como hipertensão, diabetes ou colesterol elevado, a orientação médica absoluta é jamais interromper o tratamento medicamentoso de uso contínuo nos dias de jogos, mesmo que haja o consumo social e moderado de bebida alcoólica.


Para indivíduos acima de 35 a 40 anos, manter os exames de rotina atualizados é o pilar mais seguro para identificar riscos silenciosos. O protocolo de avaliação global do coração envolve:

  • Consulta especializada: Avaliação clínica e exame físico minucioso em consultório;

  • Triagem laboratorial: Análise do perfil lipídico, glicídico e avaliação metabólica completa;

  • Exames estruturados: Realização de eletrocardiograma (ECG), ecocardiograma e, eventualmente, o teste ergométrico de esforço para avaliar a resposta cardíaca.


Para auxiliar na redução do impacto da tensão no dia a dia, medidas simples podem ser adotadas: manter uma hidratação adequada com água, garantir uma boa rotina de sono na véspera, evitar passar longos períodos sentado no sofá e realizar caminhadas leves no intervalo das partidas.


O que diz a ciência: dados que correlacionam torneios e infartos


Embora o foco preventivo do acompanhamento médico deva ser amplo e voltado aos hábitos de vida, a correlação entre grandes decisões esportivas e o estresse cardíaco é documentada por estudos científicos nacionais e internacionais. Uma pesquisa publicada em 2013 na revista científica Arquivos Brasileiros de Cardiologia, conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), analisou o comportamento do público nas Copas do Mundo de 1998, 2002, 2006 e 2010. O estudo comprovou que a incidência de infarto agudo do miocárdio no Brasil aumentou entre 4% e 8% especificamente nos dias de jogos da Seleção Brasileira, além de registrar um aumento de até 16% nas internações gerais por problemas cardíacos no período.


Esse fenômeno também foi evidenciado em um clássico estudo publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Os dados revelaram que, em dias de partidas de alta tensão emocional, as emergências cardiovasculares chegaram a quase triplicar entre os homens (aumento de 3,26 vezes) e quase dobraram entre as mulheres (1,82 vezes), com um pico estatístico que se iniciava até duas horas antes do jogo — o que reforça a necessidade clínica de manter a ansiedade sob controle e o check-up preventivo atualizado com antecedência.

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