
Procedimento inédito de hemodiálise contínua em pediatria no Hospital Santa Rosa, em Cuiabá (MT), permite que paciente de 6 anos supere síndrome grave e falência de órgãos
Cuiabá (MT), março de 2026 – A medicina do estado de Mato Grosso registrou um avanço significativo na terapia intensiva infantil com a recuperação de um paciente de 6 anos diagnosticado com uma condição imunológica raríssima. O caso de João Benício Kavano, que enfrentou a Síndrome Hemofagocítica (HLH) — também conhecida como Síndrome de Ativação Macrofágica —, marca a primeira vez que a Terapia Renal Substitutiva Contínua (CVVHDF) foi aplicada em uma criança no estado. O procedimento ocorreu no Hospital Santa Rosa (HSR), em Cuiabá.
A evolução clínica do paciente, que incluiu falência múltipla de órgãos e a necessidade de suporte tecnológico avançado, consolida a capacidade local de tratar patologias de altíssima complexidade, reduzindo a dependência de transferências para centros médicos em outras regiões do país. O menino, que recebeu alta hospitalar após 30 dias de internação, teve recuperação total na doença base e segue em processo de reabilitação para tratar a lesão decorrente do período crítico.
Desafio diagnóstico
O quadro clínico teve início com sintomas que não indicavam, inicialmente, a gravidade que estava por vir. O que parecia ser uma inflamação articular evoluiu rapidamente para um estado de deterioração sistêmica. Exames laboratoriais realizados pelo laboratório de análise clínica da instituição detectaram a presença do Parvovírus B19 por meio de teste PCR. Em João Benício, o vírus funcionou como um gatilho para a HLH, uma condição na qual o sistema de defesa do organismo entra em descontrole.
De acordo com a literatura médica, a incidência da forma primária dessa síndrome em pediatria é de apenas dois casos por milhão de crianças ao ano. “No caso das formas secundárias, associadas a infecções, como a de João, a frequência é maior, mas a gravidade permanece extrema: em pacientes críticos com falência multiorgânica, a mortalidade em centros de referência internacionais pode atingir índices entre 60% e 70%”, comenta a Dra. Emmanuele Reis, médica intensivista, nefrologista e coordenadora médica de UTI pediátrica do HSR.
A síndrome caracteriza-se por uma hiperativação imunológica desregulada, gerando o que os médicos chamam de "tempestade de citocinas". No paciente em questão, o impacto foi multissistêmico: houve comprometimento do sistema nervoso central, acúmulo de líquidos em cavidades do corpo (serosites), insuficiência respiratória aguda e insuficiência renal aguda.
Perspectiva da família
Para a família, o processo foi marcado pela incerteza e pela mudança drástica na rotina. O editor de vídeo Carlos Kavano Junior, pai do menino, conta que os sintomas começaram com febre e um cansaço incomum, atípico para uma criança que sempre foi movimentada. Com o passar do tempo, o estado febril persistia e exames mostravam estados inflamatórios altos.
“O corpo dele estava reagindo de forma diferente. A rotina da casa começou a mudar, as conversas ficaram mais baixas”, relata Carlos. Foi a partir dali que veio a internação e, posteriormente, a UTI. O impacto emocional de acompanhar um tratamento dessa magnitude é um dos aspectos mais sensíveis do relato familiar.
“Ver um filho cercado por monitores, fios e aparelhos é atravessar um território que nenhuma família está preparada para conhecer”, relembra o pai. “Os exames revelavam algo maior do que uma infecção comum. A ferritina subia a níveis alarmantes, o corpo lutava contra algo invisível. Foi nesse momento que a história deixou de ser apenas um quadro clínico e virou uma corrida contra o tempo.”
Nessa fase, veio o diagnóstico definitivo da síndrome. A partir da confirmação, a equipe médica iniciou um monitoramento intensivo, com sinais graduais de melhora diante de uma abordagem terapêutica escalonada.
Hemodiálise contínua em pediatria
Um dos pontos decisivos para a estabilização de João Benício foi a implementação da Terapia Renal Substitutiva Contínua na modalidade hemodiafiltração venovenosa contínua (CVVHDF). Foi a primeira vez que este procedimento foi realizado em um paciente pediátrico no Mato Grosso, conduzido em dois ciclos de 72 horas.
Diferente da hemodiálise convencional intermitente, a modalidade contínua é indicada para pacientes em estado crítico e hemodinamicamente instáveis. Ela permite um controle metabólico muito mais gradual e um ajuste preciso do volume de líquidos no corpo, o que é vital quando o paciente depende de drogas vasoativas para manter as funções cardíaca e pressórica.
Para viabilizar essa tecnologia, foi necessária uma integração sem precedentes entre diferentes áreas, com coordenação da Dra. Emmanuele: intensivistas da UTI Pediátrica, nefrologistas (tanto da pediatria quanto da ala adulta), reumatologistas, cardiologistas, enfermeiros especializados e equipes de farmácia e suporte multidisciplinar. “A participação de todos os profissionais envolvidos foi fundamental para o sucesso na recuperação do João Benício. E, claro, a fé do pai e da mãe, Suellen Kavano, que acreditaram até o fim do tratamento”, segundo a médica.
Reabilitação e marco assistencial
O tratamento medicamentoso foi agressivo e preciso, utilizando desde pulsoterapia com corticoides até ciclos de imunoglobulina e agentes quimioterápicos para "desligar" a inflamação desenfreada. Com o tempo, o PCR para o Parvovírus negativou, os marcadores inflamatórios recuaram e as funções dos órgãos — cerebral, cardíaca, pulmonar e renal — começaram a ser restabelecidas.
Após um mês de combate intenso à doença base, João Benício recebeu alta clínica. No entanto, a gravidade das lesões sofridas durante o pico da síndrome exige um acompanhamento de reabilitação motora, suporte nutricional e fonoaudiologia.
“Aos poucos, os sinais vitais estabilizaram. A sonda saiu. Ele voltou a se alimentar e teve a alegria de voltar a andar”, comenta Carlos. “Foram dias difíceis, cheios de incertezas, mas também de entrega, competência e humanidade. Cada profissional que cuidou do meu filho foi instrumento de algo maior. Não foi apenas técnica, foi presença, dedicação e compromisso com a vida”, explica o pai.

Impacto para a saúde estadual
O sucesso no manejo deste caso não se restringe à vitória individual do paciente e sua família. Ele representa a consolidação de protocolos de alta complexidade que agora estão disponíveis para outras crianças em Mato Grosso que enfrentam quadros de sepse grave, lise tumoral ou outras falências orgânicas agudas.
A equipe médica do Hospital Santa Rosa enfatiza que a capacidade de realizar a "hemodiálise lenta" em solo mato-grossense é um divisor de águas na região. O procedimento evita o risco inerente ao transporte de crianças instáveis para outros estados e garante que o tratamento de ponta seja iniciado no tempo correto, fator que foi determinante para a sobrevivência de João Benício.
O caso agora entra para o histórico médico da região como um exemplo de que a integração entre tecnologia de última geração e uma equipe multidisciplinar coordenada é o caminho para enfrentar diagnósticos que, até pouco tempo atrás, eram considerados intransponíveis fora dos grandes centros do eixo Sul-Sudeste.
